É isso mesmo que você está pensando. Essa crônica é um convite a “rebolar a raba” e lidar com o movimento peristáltico da vida. Assim surgiu meu mantra: “Se a vida te quebra, requebra”.
Dizem que, se conselho fosse bom, não se dava, vendia. Te aviso logo, que isso não é conselho, nem venda. É ciência testada no corpo, no pelo e nos dias difíceis que atravesso no mundo. Todo mundo tem seus dias e dias, onde quer que esteja e quem quer que seja.
Antes, deixa eu te contar de onde falo: sou uma loba nômade, psicóloga junguiana e psicoterapeuta corporal, e meu trabalho sempre seguiu numa abordagem integrativa corpo/mente. Não apenas do corpo biológico, mas do corpo psíquico e social.
Acontece que sou um corpo-mulher de 40 anos que atravessa tantos mundos há tanto tempo que eu nem saberia te dizer de onde vim. Posso afirmar que venho de lugares que nunca me couberam, mas que, por muito tempo, tentei me encaixar por medo de voar. Sempre transbordei cada um desses espaços, achando que o problema era o meu tamanho e não a limitação dos espaços.
Nesses transbordamentos, a vida me quebrou tantas vezes até que entendi uma das coisas mais importantes para minha saúde integral (física, psíquica, social, espiritual…). Algo que virou meu mantra e que quero compartilhar com você porque “a cura é coletiva”: “se a vida te quebra, requebra.”
É isso mesmo.
Não é para engolir o choro, nem os desaforos.
É pra, mesmo tristinha e borocoxozinha, rebolar a raba.
Há tempos me relembro de que “a consciência mora no quadril” (isso parece místico, mas é ciência pura). Veja, é no intestino que produzimos a maior quantidade de serotonina. Remexer as cadeiras nos coloca em ressonância com o movimento peristáltico da vida, em vez de reter as merdas que precisamos expelir.
Há pouco mais de um ano, criei um hábito que mudou minha vida. Foi num momento de muitos lutos e lutas. Naquele momento, eu atravessava o luto do Mikessuel Antonio, meu (cachorro) primogênito. Isso me quebrou de tantas formas. Então, depois de uma semana de inércia, choro e lamentos, me levantei das cinzas e tomei uma decisão: “Vou dançar.” Parecia absurdo, mas foi o convite mais sábio que eu-corpo me fez.
Comecei a dançar 3 músicas por dia. Especificamente funks: “Movimento da Sanfoninha”, “Ensaio das Maravilhas” e “Envolver”. Exatamente nessa ordem. Anitta, antes de meter EquilibrIVm, já era parte do meu sagrado, porque há muito tempo já aceitei que o “Divino é Sexual”.
Estudar realmente nos salva.
E minha relação com eu-corpo foi mudando…
Isso me deu sustentação para atravessar o luto e mudou a minha relação não só com eu-corpo, mas com a vida.
Consegui, finalmente, amar o hábito de me exercitar. Senti que, mesmo diante das tristezas, era possível mudar meu estado emocional porque a vida nunca vai deixar de me quebrar.
Hoje, por exemplo, um ano depois de começar esse rolê, acordei chorosa. Senti os tremores da vida destruindo cada partícula de fantasia que me restava depois de, mais uma vez, tentar buscar na fantasia uma fuga para a realidade. Foi então que me relembrei insistentemente do que virou meu mantra: “se a vida te quebra, requebra”.
Botei meu cropped e fui dançar.
Treinar meu músculo psíquico de “cavalona existencial” me fortalece para os desafios da vida e “mexer as cadeiras” me ajuda a ter jogo de cintura para os chacoalhões rotineiros.

As fotos mostram os resultados: no começo, essa Nanda séria que, com sua incontinência facial, não conseguia disfarçar que a vida tava doendo mais que trupicar na quina de algum equipamento parado da academia.
No meio, essa Nanda que via ali alguns efeitos das endorfinas, dopamina e serotonina (os neuroquímicos do bem-estar que dão aquele barato lindo usando a própria bioquímica cerebral, sem meter química sintética). Mas no final, com o cardio que só faço dançando, essa Nanda com um sorriso que não cabe na tela.

Há um ano, como disse, comecei com o funk e, essa semana, incorporei o samba, que tanto amo. Hoje incluí também os sons cubanos do Buena Vista Social Club.
Um detalhe importante é que, como falei anteriormente, sou uma loba nômade. Passei muito tempo morando em hostel pelo mundo. No começo eu tinha muita vergonha, até porque chama a atenção mesmo. Ainda assim, segui, porque pouca importa o que pensam de mim, me importo de verdade com o que eu sinto em mim.
Hoje estou na Tailândia e treinando na academia do prédio em que moro. Vejo algumas pessoas parecendo curiosas, outras parecendo desconfortáveis e outro dia vi um cara do prédio vizinho me espiando da janela 🙂 (dei tchauzinho pra ele e segui meu cardio).
Detesto a ideia de ficar andando em cima de uma esteira porque o movimento, pra mim, precisa ser psicossomático. Trago minha atenção plena em cada movimento da musculação, mas é na dança que a mágica acontece. Dias como hoje me recordam a importância de estar em sintonia com o quadril consciente.
Eu sei que a vida vai te quebrar milhões de vezes, mas te incentivo a usar sua malemolência e requebrar em cada uma delas. Não pense em coreografia… Não tente acertar. Não se importe se alguém está olhando, porque absolutamente ninguém se importa tanto com você quanto você mesma.
Se a vida te quebrar, use a sabedoria ancestral das cadeiras para requebrar e encontrar seu compasso na dança da existência.








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