Me chamaram de louca, mas eu me escutei uivando.
Me chamaram de louca por não aceitar constrangimento e romper o silenciamento imposto à minha voz, indomável até por mim mesma, que já tentei falar mais fino, rir mais baixo, falar doce e negociar as minhas palavras para caber. Mas o uivo da loba é algo que nem eu mesma pude conter.
Me chamaram de louca para tentar me “consertar”. Tentaram a vida toda me podar para me encaixar no espaço que já tinham reservado para mim antes de nascer: educada, comportada, casada, silenciada, apagada e abandonada até mesmo por si. Eu “loucamente” recusei.
Me chamaram de louca porque não conseguiram me chamar de serva, ainda que eu tenha até chegado à exaustão por tentar barganhar entre meu silêncio e a minha voz, na tentativa infantil da “boa garota” que mora em mim e tentou por tanto tempo obedecer para caber. Mas loba não é pet. Não se adestra. A loba solitária não se alimenta de “banquetes de migalha” e se nutre do que ela mesma caça para a sua necessidade.
Me chamaram de louca e, quando finalmente aceitei o título, me encontrei com A Loba. Então, cometi meu maior ato de loucura: encarei a insuportável dor de pagar o preço para me ser. Segui pelo mundo uivando e escutando o eco dos meus silêncios, carregando apenas o que eu preciso, sem desperdício, seja de energia, tempo, esforço… do meu Qi. Sigo caminhando lenta e solitariamente, enxergando no escuro e na luz aquilo que se oculta do óbvio no caminho.
Me chamaram de louca por reduzir as minhas coisas a uma mochila, por sair me desbravando pelo mundo, possuindo apenas o que eu posso carregar e sem deixar me faltar nada. Me chamaram de louca por acreditar que não preciso buscar nada, apenas caminhar, e o que precisa me encontrar virá ao meu encontro, mas tudo o que fica sou eu, passando pelo mundo. Me chamaram de louca por seguir o caminho do mapa traçado na minha pele, apontando o meu norte, meu destino. De trilha sonora a endereço, me tornei aquilo que tatuei: “eu sou o meu próprio lar”.
Me chamaram de louca, mas eu já estava muito longe para escutar. Entregue ao caminho, atravessei o cancelamento, o banimento, punição estratégica que tem a função de me lembrar “do meu lugar”. Silenciar até ela recuar; ela vai temer e obedecer.
Esqueceram que eu, a essa altura, conscientemente louca, fiz do banimento retiro. Me retirei do que me retira de mim e, no silêncio dos julgamentos, acolhi os meus lamentos, que foram se dissolvendo em cada passo, com lágrima e suor. No silêncio cortante, escutei cada canto meu, em uma harmonia dissonante entre meu gozo, dor e tudo o que encontrei. Caminhando, entendi que sou passageira e não paisagem.
Me chamaram de louca e quase me convenceram de que eu era mesmo.
Só não contavam que, no silêncio, eu iria escutar cada uma das minhas versões e descobrir em mim mesma o meu lugar no mundo, defendendo a soberania do meu universo com o exército que destrenei para me combater.
Me chamaram de louca, sempre temeram o estrondoso uivo da Loba em cada palavra que pronunciei.
Me chamaram de louca porque o projeto sempre foi domar A Loba.
Mas eu nunca me curvei.
Nanda Alcantara








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